Processo do letramento

 Desde cedo, fui introduzido ao universo das palavras. Lembro-me de como as histórias que me contavam, nas rodas na casa de meus avós maternos na chácara Curralinho, plantaram em mim uma curiosidade insaciável. Os causos das pescas dos meus tios, lendas populares como a história da onça vermelha (lenda da região local rural) e as narrativas que povoavam minha infância abriram janelas para mundos que eu ainda não conhecia, um mundo que foi possível a partir da construção de conhecimentos em práticas involuntárias. Cada livro que eu pegava representava na infância um portal para experiências inéditas, personagens fascinantes e, acima de tudo, um profundo diálogo interno com minhas próprias emoções. Diálogos que fiz a parti dos personagens que lia em livros infantis, e que a partir desses soube diferenciar a alfabetização com o letramento. Recordo que li o livro, O patinho feio, que retrata o preconceito e a superação diante das adversidades, e como esse livro na infância ajudou a moldar minha personalidade. Faço essa releitura depois de anos, e vejo a contribuição que as lições dos livros infantis ajudaram na construção do meu caráter.



Cresci no município de Silvanópolis, Estado do Tocantins, uma cidade do interior que todos os moradores se conhecem. Lugar calmo e que no fim da tarde, é comum ver as senhoras sentadas nas portas de suas casas, aproveitando a brisa suave enquanto conversam sobre a vida dos moradores. As risadas e os comentários atravessam a rua e se misturam ao som das cigarras e ao cheiro de café que vem das cozinhas. Esse hábito simples, de se reunir e compartilhar histórias, faz parte do charme e da simplicidade do lugar que até hoje se atravessa, dando um toque especial de aconchego e cumplicidade entre os vizinhos.

O letramento, mais do que a mera capacidade de ler e escrever, sempre foi para mim um processo de descoberta e autotransformação. Lembro-me de quando, na escola, fui incentivado a ler meus primeiros livros inteiro sem ajuda. Aquilo não foi apenas um marco de ensino escolar, mas um ponto de virada, pois tinha 08 anos de idade e cursava a 4º ano do ensino fundamental 1. O livro que escolhi era modesto, mas o impacto que ele teve sobre mim foi imensurável, O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry. Foi como se, de repente, eu tivesse adquirido uma nova linguagem para compreender o mundo e me expressar nele. Ler O Pequeno Príncipe foi uma experiência marcante, pois o livro me trouxe reflexões profundas sobre amizade, amor e a simplicidade das coisas. Ele me fez entender a importância de enxergar além das aparências, buscando o que realmente importa nas relações e nas experiências. Cada personagem e metáfora se tornaram guias para que pudesse olhar o mundo com mais empatia e autenticidade, lembrando sempre que “o essencial é invisível aos olhos.” Esse livro plantou em mim valores que continuam a me orientar, ajudando-me a ver a vida de forma mais poética e sensível.

Essa experiência com a leitura não foi isenta de desafios. Por vezes, enfrentei textos complexos demais para minha idade ou linguagem que parecia distante da minha realidade cotidiana, ler textos de José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego trouxeram uma dificuldade que enfrentei no ensino médio. Textos que não faziam parte da realidade de minha infância.

Ao longo dos anos, depois do ensino médio, fui compreendendo que o letramento não é apenas a decodificação de símbolos; é um ato de empoderamento. O letramento me permitiu dialogar com diferentes culturas na graduação em textos que pude refletir criticamente sobre as realidades que me cercam e, sobretudo, me expressar. A capacidade de entender e produzir textos de diferentes naturezas é uma habilidade vital que abre portas para o conhecimento e a autonomia. Portas que não seriam possíveis sem o letramento.

Hoje, depois da primeira graduação ao refletir sobre minha trajetória como leitor, vejo o letramento como algo que transcende o espaço escolar. Ele se torna uma prática diária de envolvimento com o mundo. Não é apenas uma ferramenta de aprendizado, mas também uma maneira de me reconectar com minha história, minhas raízes e de projetar o futuro. Cada livro lido, cada texto escrito, carrega consigo uma parte de mim, e essa relação com a leitura continua a moldar a pessoa que sou e aquela que quero me tornar.







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